Quando uma pessoa idosa acumula cinco, oito ou dez medicamentos por dia, geralmente não foi por uma decisão única. Foi a soma de prescrições de vários médicos, ao longo de anos, cada uma correta no seu contexto e nenhuma revista em conjunto. Esse acúmulo tem nome técnico, polifarmácia, e deixou de ser detalhe administrativo para virar um dos fatores de risco mais estudados na saúde do idoso.
O que a evidência mostra
Polifarmácia é comum: uma revisão sistemática publicada em 2024 confirmou que multimorbidade e uso simultâneo de muitos medicamentos andam juntos e se tornaram a regra, não a exceção, entre pessoas com 65 anos ou mais. O problema é o que vem associado a ela. A literatura liga a polifarmácia a maior risco de fragilidade, quedas, interações entre medicamentos e hospitalização.
Um estudo de coorte com mais de 2,6 milhões de pacientes idosos quantificou esse risco: quem manteve polifarmácia por mais de seis meses teve cerca de 32% mais chance de hospitalização e de ida ao pronto-socorro, e risco de óbito cerca de 63% maior em comparação com quem não usava muitos medicamentos. Na chamada polifarmácia excessiva, os números cresceram ainda mais.
Confusão não é, automaticamente, "coisa da idade"
Entre os primeiros sinais de que o esquema de medicamentos precisa ser revisto estão pequenas confusões, sonolência, quedas e tonturas. É um ponto delicado: nem toda confusão nova é envelhecimento. Às vezes é interação medicamentosa, e isso é avaliação clínica, não resignação.
O que a revisão clínica faz
A boa notícia é que polifarmácia é modificável. Uma revisão de 2024 que reuniu ensaios clínicos sobre desprescrição concluiu que reduzir medicamentos potencialmente inadequados é uma intervenção promissora em diferentes contextos, sem piora dos desfechos de saúde. Ferramentas validadas, como os critérios STOPP/START, ajudam a identificar o que pode sair com segurança, sempre em diálogo com os médicos prescritores. A iniciativa global da Organização Mundial da Saúde, Medication Without Harm, estabeleceu a meta de reduzir pela metade os danos graves relacionados a medicamentos, com a polifarmácia no centro do esforço.
Na gestão do cuidado, essa revisão não é episódica. A enfermeira-gestora mantém a lista de medicamentos consolidada, observa sinais entre as consultas e leva ao médico a pergunta certa no momento certo, integrando as condutas de quem prescreve. É a diferença entre uma gaveta cheia de caixas e um esquema realmente coordenado.